(Tradução de matéria publicada na edição eletrônica de 15/08/2012 da revista semanal alemã Der Spiegel. O texto original em inglês pode ser lido no endereço http://www.spiegel.de/international/germany/press-review-on-bologna-process-education-reforms-a-850185.html)

Já faz 10 anos desde que as controversas reformas de Bolonha começaram a transformar a educação superior na Alemanha. Opiniões divergem sobre se suas metas foram alcançadas, mas editorialistas argumentam que as universidades detêm parcela da culpa pelas salas de aula superlotadas e estudantes insatisfeitos.

As “Reformas de Bolonha” da Educação Superior eram tidas como um plano que traria benefício aos estudantes. Porém, na Alemanha, pelo menos, elas têm se mostrado impopulares entre um grande número de jovens universitários.

O Processo de Bolonha, que foi iniciado em 1999, foi imaginado para modernizar o sistema de educação universitária na Europa, aumentando a intercompatibilidade das instituições e facilitando aos estudantes o intercâmbio entre universidades ou o estudo em um país estrangeiro. Na Alemanha, onde os estudantes em geral acumulavam mais anos de estudo do que nos demais países, o foco foi posto em substituir o antigo modelo de graus por um sistema de bacharelado/mestrado, em que os estudantes poderiam se formar como bacharéis e entrar no mundo do trabalho depois de apenas três anos, ou seguir estudando para obter o grau de mestre.

Mas, muitos estudantes alemães têm mostrado desagrado com as reformas, que transformaram radicalmente o panorama da educação superior no país. Eles se queixam de que um volume excessivo de material foi espremido nos três anos dos cursos de bacharelado e de que não há um número de vagas suficiente à disposição em programas de mestrado. Também dizem que a padronização planejada dos cursos não ocorreu, tornando difícil o intercâmbio entre universidades. Alguns também têm feito críticas ao novo sistema em vista da prioridade que ele dá à preparação dos estudantes para o mercado, em vez de dar a eles uma formação ampla.

Os problemas se acumulam

Neste momento, no aniversário de dez anos desde que as reformas tornaram-se lei na Alemanha, os dirigentes das universidades estão fazendo um balanço. Horst Hippler, o presidente da Conferência dos Reitores da Alemanha (HRK) que representa as instituições de ensino superior, criticou severamente as reformas de Bolonha em uma entrevista publicada na edição de terça do Süddeutsche Zeitung.

A atual prática de apressar os jovens em fazer seus estudos e colocá-los em um emprego está errada, disse Hipler ao jornal. As universidades têm o dever de educar pessoas tanto quanto de treiná-las para um trabalho, disse ele, algo que não acontece com os novos bacharelados. Segundo ele, empresas querem contratar indivíduos que tenham se desenvolvido integralmente, e não apenas indivíduos graduados. Mas, os estudantes necessitam de mais tempo para poder desenvolver suas personalidades, disse ele.

Hippler disse ainda que a meta de facilitar a ida de estudantes para estudos em outros países não havia sido alcançada. O novo Sistema Europeu de Transferência e Acumulação de Créditos (ECTS) não tornou os cursos compatíveis entre si e obter créditos reconhecidos pode ainda ser difícil, relatou.

Na entrevista ao Süddeutsche, Hippler também afirmou que as universidades alemãs precisavam de mais dinheiro para dar conta da atual enxurrada de estudantes. A HRK fez recentemente uma advertência quanto ao aumento acima do esperado de matrículas nas universidades, gerando uma escassez de recursos nas instituições.

Os comentários de Hippler contradisseram a Ministra da Educação Annete Schavan, que na semana passada fez elogios às reformas de Bolonha como “uma história europeia de sucesso”. Schavan afirmou que as metas de internacionalização dos estudos e de redução do tempo necessário para obtenção de um grau acadêmico haviam sido cumpridas.

Na quarta-feira, editoriais de jornais alemães examinaram o sucesso das reformas de Bolonha.

O Financial Times Deutschland escreve:

As reformas de Bolonha, que tiveram início há exatamente 10 anos, eram ambiciosas. Elas alteraram de maneira fundamental graus e universidades na Alemanha, tornando-os mais internacionais e encurtando o período de estudo.”

“No entanto, chamá-las acriticamente de sucesso é ir longe demais. A Ministra da Educação Annette Schavan está sendo complacente demais consigo mesma. Na realidade, muitas das metas das reformas foram apenas parcialmente atingidas. Agora, Horst Hippler identificou claramente os problemas. O número de estudantes realizando intercâmbio é muito baixo, ao passo que o número dos que abandonam é excessivamente alto. As estruturas são demasiado rígidas para dar conta dos estudantes que passam semestres fora, ou para as realidades de ter de combinar os estudos com filhos e com o trabalho em tempo parcial. É verdade que o novo sistema produz graduados com mais rapidez, mas infelizmente também produz menos pessoas com perfil que se ajusta ao que a indústria realmente deseja.”

Mas as próprias universidades têm parte da responsabilidade (pelo fato de os problemas não terem sido corrigidos). No momento, elas não estão efetivamente interessadas em realizar novas reformas. Têm de lidar com quantidades de estudantes maiores do que jamais houve em virtude da demografia e das reformas escolares – e ficam felizes se podem se livrar deles outra vez depois de três anos com um diploma de bacharel nas mãos. Entretanto, muitas dessas pessoas querem seguir estudando, pois têm melhores chances de conseguir um emprego se têm um mestrado. Por outro lado, as universidades não possuem recursos suficientes para oferecer mais vagas em cursos de mestrado.”

O diário de negócios Handelsblatt escreve:

O novo presidente da Conferência de Reitores da Alemanha está insatisfeito com as reformas de Bolonha. E muitos concordam com ele. Mas não há razão para abandonar o novo sistema de bacharelado/mestrado e retornar aos graus antigos.”

Seguramente, ainda há enormes problemas com as maiores reformas pelas quais nossas universidades já passaram. (…) Mas, muitos problemas não têm nenhuma relação com o Processo de Bolonha. Atualmente, 2 milhões de pessoas estão estudando na Alemanha. Este é um fenômeno de larga escala, em que os belos antigos ideais de educação integral humanística já não podem ser alcançados em parte alguma. De fato, isso já havia deixado de ser possível em muitos pontos nas décadas de 1980 e 90.”

A Alemanha implantou as reformas de Bolonha com a típica meticulosidade germânica, e se excedeu em algumas coisas ao longo do processo. Muitas universidades gostariam agora de se concentrar em suas funções fundamentais, o que já é difícil o bastante devido às hordas de estudantes e a uma carência de dinheiro. Não obstante, a reforma do século ainda terá de amadurecer por muitos anos, antes de vir a ser completamente bem sucedida.”

O jornal de esquerda Berliner Zeitung escreve:

O Processo de Bolonha é controverso por boas razões, mas não há alternativa. Mesmo os críticos mais ferrenhos da maior reforma da educação superior de todos os tempos da Europa reconhecem, 10 anos depois de sua introdução, que a ideia política básica era e é vigorosa: permitir que pessoas estudem sem fronteiras e criar intercâmbios sem impedimentos entre pesquisadores de universidades da Europa. O fato de que com frequência mais obstáculos têm sido criados do que removidos não pode ser imputado inteiramente às reformas. Quando Horst Hippler critica Bolonha, ele tem apenas metade da razão. Ele e outros dirigentes de universidades tinham poder para reorganizar os graus universitários de modo a corresponderem a suas ideias.”

Este ano, mais estudantes do que em nenhuma outra época estão marchando para as universidades. Mas, os mais brilhantes e os melhores de nossa suposta sociedade do conhecimento têm primeiro de lutar por um espaço nas salas de aula superlotadas. Isso pouco tem a ver com o Processo de Bolonha e tudo com o fato de que a promessa de transformar a educação em prioridade na Alemanha não foi mantida.”

– David Gordon Smith