Por Ilana Yurkiewicz | 23 de setembro de 2012

O artigo original foi publicado no blogue Unofficial Prognosis, hospedado na página da publicação americana Scientific American, e pode ser lido no endereço

http://blogs.scientificamerican.com/unofficial-prognosis/2012/09/23/study-shows-gender-bias-in-science-is-real-heres-why-it-matters/

É difícil provar o preconceito de gênero. Em um cenário do mundo real, o máximo que tipicamente pode ser feito é identificar diferenças em resultados de fato. Um homem é preferido a uma mulher na contratação para um emprego; um número menor de mulheres chega a cargos docentes efetivos; há uma disparidade de gênero em publicações. Pode-se suspeitar de tratamentos desiguais em alguns casos, mas a dificuldade em utilizar resultados para demonstrar isso é que as diferenças poderiam ser devidas a muitos fatores potenciais. Podemos especular: talvez mulheres tenham menor interesse pelo campo. Talvez elas façam escolhas de estilo de vida que as afastem dos postos de liderança. Em um cenário de mundo real, em que um número qualquer de variáveis pode contribuir para um resultado, é essencialmente impossível separá-las e precisar aquela que é a causa.

A única maneira de fazer isso seria por meio de um experimento em condições controladas e randomizado. Isto significa criar uma situação na qual todas as variáveis exceto aquela de interesse fossem mantidas iguais, de modo que as diferenças de resultado pudessem de fato ser atribuídas àquele fator que variou. Se é na desigualdade de gênero que estamos interessados, isso significaria comparar as reações ante dois seres humanos idênticos – idênticos em inteligência, competência, estilo de vida, objetivos, etc. – com a única diferença entre eles sendo que um deles é um homem e o outro, uma mulher. Não exatamente uma situação que exista no mundo real.

Mas em um estudo pioneiro de Corinne Moss-Racusis e colegas, publicado na semana passada em PNAS, foi exatamente isso o que foi feito. Na quarta-feira, Sean Carroll comentou em seu blogue e trouxe à luz a pesquisa com cientistas de Yale a quem foi destinado o portfólio de um estudante candidato a uma vaga de diretor de laboratório e que pretendia seguir para a pós-graduação.

Metade dos cientistas recebeu o material com um nome masculino para o proponente, e a outra metade recebeu exatamente o mesmo material, porém com um nome feminino anexado. Os resultados mostraram que os candidatos “do sexo feminino” foram classificados de maneira significativamente inferior àqueles “do sexo masculino” em competência, empregabilidade e quanto à disposição do cientista a ser o orientador do estudante. Os cientistas também ofereceram salários iniciais mais baixos aos candidatos “do sexo feninino”: US$ 26.507,94 comparados a US$ 30.238,10.

Isso é realmente importante.

Sempre que o assunto de mulheres na ciência vem à tona, apresentam-se pessoas ferozmente comprometidas com a ideia de que o sexismo não existe. Essas pessoas irão apontar para tudo e para qualquer outra coisa a fim de explicar as diferenças e vão se mostrar indignadas e condescendentes assim que você apenas sugerir que a discriminação poderia ser um fator. Mas essas pessoas estão erradas. Os dados mostram que estão erradas. E se você vier a se encontrar com elas, você já pode usar esse estudo para informá-las de que estão erradas. Você pode dizer que um estudo mostrou que, com todos os demais fatores sendo rigorosamente iguais, as mulheres são discriminadas na ciência. O sexismo existe. É real. Certamente, você não pode e não deve argumentar que isso é tudo. Mas, não há mais como argumentar que não seja nada.

Não estamos falando aqui sobre igualdade de resultados; esse achado mostra discrepâncias no que diz respeito à igualdade de oportunidade.

Aqui vão três razões adicionais pelas quais esse estudo merece ser visto como importante.

1) Tanto cientistas do sexo masculino quando do feminino foram igualmente implicados em decisões que acarretavam desigualdades de gênero. Sim – mulheres também podem se comportar de maneira sexista. Mulheres precisam examinar suas atitudes e ações em relação a outras mulheres tanto quanto os homens. O que isso sugere é que as desigualdades provavelmente não surgiam de uma misoginia franca, mas eram antes uma manifestação de preconceitos mais sutis internalizados a partir de estereótipos presentes na sociedade.

Se o corpo docente expressa preconceitos de gênero, não estamos sugerindo que tais preconceitos sejam intencionais ou sejam provenientes do desejo consciente de impedir o progresso das mulheres na ciência. No passado, estudos indicaram que o comportamento das pessoas é moldado por predisposições implícitas ou não intencionais, advindas de uma exposição contínua a estereótipos culturais disseminados que retratam as mulheres como menos competentes…”

2) Quando cientistas julgavam proponentes mulheres de modo mais severo, eles não empregavam raciocínio sexista. Em vez disso, eles se baseavam em razões aparentemente sólidas para justificar o porquê de não quererem contratá-las: ela não é competente o bastante. Sexismo é uma palavra pesada, muitos de nós só nos sentimos confortáveis para identificá-lo quando é exibida uma linguagem ou um comportamento explicitamente misóginos. Porém, isso mostra que você não precisa fazer uso de linguagem anti-mulheres nem mesmo dar abrigo conscientemente a crenças anti-mulheres para agir de modos que sejam efetivamente em prejuízo das mulheres.

Em termos práticos, esse fato faz com que se torne muito fácil que uma mulher internalize críticas injustas como sendo válidas. Se o seu trabalho é rejeitado por uma razão obviamente ruim, tal como “é porque você é uma mulher”, você pode simplesmente repudiar quem a rejeitou como alguém preconceituoso e, portanto, não digno de ser levado a sério. Mas, se alguém lhe diz que você é menos competente, é fácil aceitar isso como verdade. Afinal, por que você não deveria? Quem é que vai querer passar a vida constantemente tentando distinguir quais críticas de superiores são baseadas no conteúdo do seu trabalho e quais são indevidamente influenciadas pelas características acidentais de quem você aconteceu de ser? Infelizmente, também, muitas mulheres não estão atentas a discriminações sutis de gênero. Fazer essas reclamações está fadado a ser uma tarefa complexa e imperfeita. Mas não reconhecer isso quando está acontecendo significa aceitar: “Eu não sou competente”. Significa acreditar: “Eu não sirvo para esse emprego”.

3)Por mais perturbadores que sejam estes resultados, eles também são críticos para alcançar soluções. Que os preconceitos contra mulheres sejam com frequência inconscientes significa que as pessoas necessitam de um empurrão extra para percebê-los e combatê-los. Estou disposta a apostar que muitos dos que participaram neste estudo, assim como as pessoas que fazem testes de associações implícitas, ficariam aborrecidos em saber que inconscientemente discriminam mulheres, e iriam querer consertar isso. Preconceitos implícitos não podem ser superados até que sejam notados, e esse estudo realiza esse primeiro passo essencial: a tomada de consciência.

A partir da leitura dos comentários ao artigo de Sean Carrol, a maior parte das pessoas que leem isso tendem a exibir uma destas quatro reações :

1) Isso não me surpreende, mas estou contente por termos algo concreto para mostrar aquilo que sempre soubemos.

2) Isso é surpreendente e perturbador.

3) A Figura 2 induz a conclusões erradas, pois o eixo y não começa no zero. Por isso, vou rejeitar todo o mais que foi exposto por esse estudo.

4) Mulheres igualmente qualificadas devem ser discriminadas, tendo em vista que elas poderiam ficar estressadas e ficar grávidas.

Receio que os de número 4 existam, e pela minha experiência eles não estão muito inclinados a mudar de opinião.

O que é importante é que os de número 2 estão por aí. Certamente, uma parte da desigualdade de gênero no ambiente de trabalho ainda assume a forma de misoginia descarada. Mas, uma grande porção dela não. É sutil. É inconsciente. E muitas pessoas que a perpetram, se se tornassem conscientes do que estão fazendo, iriam querer mudar. Certa vez, soube de um professor que, sempre que ia falar de ciência buscava regularmente o contato visual com interlocutores homens; apenas quando essa observação foi apontada a ele é que ele veio a perceber que o fazia, e ficou agradecido por alguém ter-lhe dito para que pudesse mudar.

Os de número 2 existem, mas apenas podem mudar se conhecerem os fatos. Estes são os fatos: mulheres igualmente competentes na ciência são tidas como menos competentes em razão do seu gênero. Lembre-se disso. Mencione isso. E se você quer mudar, eu insistiria para que você compartilhasse esses fatos com o maior número de pessoas possível.

Ilana Yurkiewicz

Sobre a autora: Ilana Yurkiewicz é estudante do segundo ano da Escola de Medicina de Harvard, e bacharel em biologia pela Universidade de Yale.

Ela foi repórter de ciências do The News & Observer em Rayleigh, Carolina do Norte por meio de sua associação ao AAAS Mass Media, e depois disso passou a escrever para o Science Progress de Washington. Ela possui interesse acadêmico em bioética e atualmente conduz pesquisa em ética em Harvard, tendo feito parte da Comissão Presidencial para o Estudo de Questões de Bioética.

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