Posts tagged literatura

Literatura unificante

0

Literatura unificante.

Literatura unificante

Rolando Lazarte

Hay algunos libros con los cuales nos confundimos. De tal modo el relato nos incluye, habla de nosotros, es nosotros mismos. Esto me ha pasado recientemente con uno o dos libros de José Saramago (El hombre duplicado, y Todos los nombres), y con uno de Henry James, A fera na selva. Es tan sorprendente como agradable, entrar en esa zona a que la lectura nos lleva, adonde ya no estamos aqui leyendo lo que alguien allá, lejos, no sé dónde, escribió, sino en un lugar que no es allá ni aquí, o más bien un lugar que es un aquí incluyente, hecho de un relato que hecho allá, lejos, no sabemos bien adónde, nos incluye. El autor o la autora habla de nosotros, sin conocernos. ¿Dónde está la realidad? ¿Cuál es la realidad? ¿Qué es la realidad? La literatura borra las barreras de la supuesta objetividad. Rompe la disociación, crea unidad, nos disuelve en lo uno.

A matemática é tão rica quanto a literatura

0

(Tradução livre de resenha escrita por Simon Ings do livro Thinking in Numbers, de Daniel Tammet. O texto original em inglês pode ser lido no endereço http://www.newscientist.com/blogs/culturelab/2012/08/mathematics-is-as-rich-as-literature.html)

Muitos escritores talentosos já tentaram traduzir o pensamento matemático em termos que o leitor comum fosse capaz de entender. O novo e despretensioso volume de ensaios, reminiscências e histórias de Daniel Tammet revela a enormidade do insucesso deles. Thinking in Numbers é sem precedentes: um afinado dueto entre matemática e literatura. Mais que isso: é um híbrido. Algo novo. Thinking in Numbers reflete a recusa que Tammet tem apresentado ao longo de toda sua carreira em aceitar que as construções mentais da matemática são de algum modo especiais, abstrusas, apartadas da realidade humana. Sinesteta, poliglota e homem de memória – certa feita, ele recitou o pi até 22.514 casas decimais, estabelecendo um recorde europeu – Tammet tem a convicção de que sua atividade mental autística é normal. As diferenças, tais como elas se afiguram, entre seus pensamentos e os da maioria das outras pessoas têm a ver com o tipo de atenção que ele traz para o mundo. Números têm textura, cor e caráter. Prestarmos atenção a essas qualidades, explorá-las e apreciá-las tem um pouco a ver com nossa herança genética, mas muito mais com nossa experiência de escola, e liga-se fundamentalmente à escolha pessoal. Todos nós pensamos matematicamente o tempo todo. Ter “medo de números”é uma atitude deliberada, uma postura, uma escolha estética, tão certo quanto não “entender” jazz, ou condenar essa ou aquela forma de arte como “lixo”.

Para um livro que lança uma claridade amargamente brilhante sobre nosso imediatismo cultural, há surpreendentemente uma ausência de professoralismo aqui, e não grunhidos de mau humor. Esses ensaios são por vezes descontraídos e confessionais (como quando Tammet, o homem com um cérebro que supostamente opera em capacidade máxima, falha fragorosamente na previsão das mais simples das ações de sua própria mãe). São vistas diversas performances virtuosísticas. (Percebendo que Shakespeare teria estado entre as primeiras crianças inglesas a aprender sobre o zero na escola, Tammet reinterpreta e elucida alguns dos mais poderosos e comoventes versos do poeta-dramaturgo.) Mas Tammet, embora aprecie os números do mágico de salão, não é um showman natural. Ele prefere a persuasão, a conversação e o registro das sutilezas.

A matemática em suas histórias é amiúde muito simples de fato, como quando ele observa, com intensa atenção e compaixão, o quanto um amigo luta para finalmente chegar à solução de uma charada matemática corriqueira. É possível sentir a solidão de Tammet nesses momentos: ele habita um mundo de grande variedade e beleza, mas lamentavelmente recebe poucas visitas. Nós não nos aproximamos de romances, ou mesmo de poesia, de maneira tão temerosa quanto nos acercamos da matemática, embora Tammet demonstre de modo convincente que as três formas estão muito estreitamente relacionadas, possuindo vínculos muito mais vigorosos e demonstráveis do que aqueles que supostamente atam a matemática à música.

Em outra parte, Tammet se inclina para assuntos ligeiramente melancólicos: a efemeridade dos flocos de neve; o idealismo vão que alimenta a criação de cidades impossíveis de construir; os autoenganos alinhavados pela fórmula com aparência científica de Frank Drake, equacionando as chances de haver outras vidas inteligentes no universo.

Thinking in Numbers não é um livro sobre a matemática em si mesma. Ele se volta para o componente matemático da experiência vivida. É sobre as curiosas maneiras sensórias em que medidos o mundo (por exemplo, a preponderância de palavras iniciadas pela letra “g” “para descrever coisas que são ‘grandes’, ou ‘graúdas’, ou ‘grosseiras’ ou ‘gargantuescas””); a pequenez do indivíduo em face do pi; as satisfações retóricas de um teorema elegante; os números primos que ativam certos tipos de poesia.

A matemática, diz Tammet, é ilimitável. É uma linguagem por meio da qual a imaginação humana expressa a si mesma. Provavelmente, isso significa que a matemática tenha, ou mereça ter uma literatura. Em Tammet, ela já possui um poeta.

 Thinking in Numbers

Autor: Daniel Tammet

Editora: Hodder & Stoughton

2012, 288 páginas, em inglês.

Apurando a percepção por meio da arte: Cecília Meireles

0

Da solidão

(de Cecília Meireles)

Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que delas se apodere imensa angústia: como se o peso do céu desabasse sobre sua cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.

No entanto, haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de idéias, que impedem uma total solidão?

Tudo é vivo e tudo fala, em redor de nós, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério. Como aquele Sultão Mamude, que entendia a fala dos pássaros, podemos aplicar toda a nossa sensibilidade a esse aparente vazio de solidão: e pouco a pouco nos sentiremos enriquecidos.

Pintores e fotógrafos andam em volta dos objetos à procura de ângulos, jogos de luz, eloquência de formas, para revelarem aquilo que lhes parece não só o mais estático dos seus aspectos, mas também o mais comunicável, o mais rico de sugestões, o mais capaz de transmitir aquilo que excede os limites físicos desses objetos, constituindo, de certo modo, seu espírito e sua alma.

Façamo-nos também desse modo videntes: olhemos devagar para a cor das paredes, o desenho das cadeiras, a transparência das vidraças, os dóceis panos tecidos sem maiores pretensões. Não procuremos neles a beleza que arrebata logo o olhar, o equilíbrio de linhas, a graça das proporções: muitas vezes seu aspecto – como o das criaturas humanas – é inábil e desajeitado. Mas não é isso que procuramos, apenas: é o seu sentido íntimo que tentamos discernir. Amemos nessas humildes coisas a carga de experiências que representam, e a repercussão, nelas sensível, de tanto trabalho humano, por infindáveis séculos.

Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas, já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que nos encontramos. Amemos o antigo encantamento dos nossos olhos infantis, quando começavam a descobrir o mundo: as nervuras das madeiras, com seus caminhos de bosques e ondas e horizontes; o desenho dos azulejos; o esmalte das louças; os tranquilos, metódicos telhados…Amemos o rumor da água que corre, os sons das máquinas, a inquieta voz dos animais, que desejaríamos traduzir.

Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou distraídos. Mundo delicado, que não se impõe com violência: que aceita a nossa frivolidade ou o nosso respeito; que espera que o descubramos, sem anunciar nem pretender prevalecer; que pode ficar para sempre ignorado, sem que por isso deixe de existir; que não faz da sua presença um anúncio exigente ” Estou aqui! estou aqui! “. Mas, concentrado em sua essência, só se revela quando os nossos sentidos estão aptos para descobrirem. E que em silêncio nos oferece sua múltipla companhia, generosa e invisível.

Oh! se vos queixais de solidão humana, prestai atenção, em redor de vós, a essa prestigiosa presença, a essa copiosa linguagem que de tudo transborda, e que conversará convosco interminavelmente.

In Janela Mágica, Editora Moderna, pp. 48 – 51.

Go to Top